Em 1995, depois de muita ralação, estava no quarto ano da Poli. 1994 havia sido um ano atípico, minha mãe passou por um período difícil de sua vida, um câncer que, graças a Deus, foi curado. O fato é que durante boa parte do ano ela precisou se ausentar da fábrica para fazer o tratamento em São Paulo. Nesta época eu vinha de uma ressaca de terceiro ano de engenharia de eletricidade. Em 1994 eu fazia apenas quatro matérias, pois tinha dividido o terceiro em dois.
Por pura vagabundagem. Não vou dizer que não me arrependo, que não faz diferença, porque faz. Eu poderia ter saído da Poli no final de 1995, mas graças a alguns escorregões, perdi o primeiro ano da minha vida. Hoje com quase 40, não faz tanta diferença. Mas na época senti muito e resolvi tomar jeito.
O fato é que, dada a minha grande janela sem aulas, eu assumi o lugar da minha mãe na empresa, pelo menos operacionalmente falando. Eu tinha faculdade, minha mãe tinha a escola da vida, que é a mais difícil e a que melhor ensina. Enfim, passei o ano de 1994 assistindo aulas de segunda-feira. Acabada a aula, pé na estrada para Dourado. Ficava na tecelagem até sexta-feira. Pegava o Gol branco e voltava para São Paulo. Direto para o curso noturno de japonês que minha mulher fazia na Liberdade. Assistia aula de Mecânica dos Fluidos e de Eletromagnetismo no sábado. E assim passei 1994.
Meu pai sempre foi rígido comigo e claro que o próximo carro era problema meu. Mas minha mãe, muito sensibilizada e com medo de partir (hoje que tenho filhos entendo isso...) pôs na cabeça que queria trocar o meu carro. O velho foi contra, mas a situação era relativamente delicada em casa nesta época. E no ano seguinte, em junho de 1995, ganhei um Fiat Tipo de presente. Zero quilômetro.
Assinando no livro - Colação de Grau - EPUSP 1996
O Tipo, já com algumas modificações
Casa dos meus pais
Sempre impecável
Tudo que é feito na emoção e com pouca razão acaba não sendo muito legal. O Tipo era um carro muito bonito e alcançou um certo sucesso, vendendo mais de 145 mil carros entre 1993 e 1997. Mas o seu sucesso literalmente derreteu com a incidência de unidades incendiadas por problemas de fabricação. Hoje este carro está praticamente extinto e os poucos que restam não valem 5 mil Reais. E era um carro muito bom! Espaçoso, completo mesmo nas versões mais básicas, barato e com acabamento razoável.
Fiquei muito pouco tempo com ele. Dois anos exatos. Esse carro me lembra de uma fase difícil dos meus pais, não financeira, mas do relacionamento deles. Foi um período de grande fragilidade familiar.
Como já havia feito com o gol, troquei rodas, cortei molas, etc... O carro era lindo. Quando me formei, em dezembro de 1996, a nossa situação financeira era péssima. Mas tudo vem na hora certa. Sempre gastei o dinheiro dos meus pais durante a faculdade. Na verdade gastava mal. E sempre me toleraram. Quando me formei tive a oportunidade de sair empregado, e com meus primeiros salários pude ajuda-los. E faço isso até hoje, e com muito orgulho de poder fazê-lo. Meus pais perderam quase todos os bens materiais, mas sinceramente gosto mais do jeito deles hoje do que quando estávamos bem financeiramente falando. São unidos, comedidos, companheiros. Enfim, como deve ser uma família. Hoje são tranquilos, vivem de aposentadoria e da retribuição minha e do meu irmão. Fiquei muito contente em dar um carro para eles, ano retrasado. São excelentes pais. Quando o Magnum quebrou a noite, em cinco minutos lá estava o velho. Minha mãe religiosamente busca os netos na escola. Amo-os muito, e sou grato pelos valores e pela educação que recebi.
abraços!
Vital
PS: O engraçado é que pesquisando o DPVAT, o carro foi licenciado até 2008 ou 2009. Ou seja, até que durou. Quando vendi ele já tinha quase 70 mil km rodados.