Houve um tempo que, se estivéssemos em férias, com certeza estaríamos em Dourado. Foi uma época muito boa. Passávamos 3 meses, desde o início de dezembro até o começo de março. Começavam as férias, entrávamos no carro e lá ia a família para o interior, 300 km de estrada. Anhanguera, Washington Luiz e uma estrada de 50km até Dourado. Lembro que perguntava ao meu pai quantos km faltavam para chegar, de cinco em cinco minutos. Parávamos na metade do caminho para um lanche, tanto na ida como na volta. Na ida almoçávamos na Churrascaria Rio Grandense, éramos os primeiros clientes. Quando meu avô morreu e os donos souberam, não deixaram meus pais pagarem pelo almoço. Ele era um sujeito muito querido e deixou muitos amigos. Há poucos anos atrás parei para almoçar lá com minha mulher. Um dos donos lembrou de mim e da minha família. Eu gosto destas histórias.
Na volta o restaurante Figueira Branca era parada obrigatória. Era uma viagem mais curta que a da ida, pois não tínhamos ansiedade alguma em voltar para São Paulo. Enfim, ir para Dourado era um evento e tanto!
Eu e meu irmão, brincando na lama! Atrás da fábrica.
Hoje, mais de trinta anos depois, vendo meus filhos em suas cadeirinhas pelo retrovisor, lembro com muita saudade daquela época e desejo para eles uma infância tão feliz quanto a que eu e meu irmão tivemos. Sempre quando posso, levo a minha família para Dourado. Apesar de não ficarmos na nossa casa, sempre levo meus filhos até lá e até a fábrica, para que eles tenham contato com suas origens. Com a história da família deles.
Em 1975 minha mãe já tinha dois filhos. Ela é filha única, de um pai que sempre esperou um filho homem. Uma coisa boba hoje, mas que na época não era, ainda mais se tratando de um filho de libanês. O fato de minha mãe dar ao seu pai dois netos homens foi de uma alegria muito grande para meu avô. aí que entra em cena o carro deste post: o Alfa Romeo 2300 1975.
Frente imponente, muito estilo.
Lembro deste descansa braço até hoje. Eram 4 horas de viagem.
Esse painel não tem igual, até hoje. Minha opinião... O nosso não tinha A/C
Sempre gostei de carro. E de carro bom. Quando vi e me falaram o nome deste, repetia sempre: "mãe, compra um Faromeo!". Lembro-me disso como se fosse hoje. As Alfas começaram a ser feitas em 1974, a fábrica era no Rio de Janeiro. A famosa FeNeMê. Era um carro que, apesar de mal construído, de fácil corrosão, ausência de direção hidráulica, era muito charmoso. Freio a disco nas quatro rodas, um luxo que poucos nacionais apresentam nos dias de hoje. Os R/Ts não tinham. Antena elétrica, mostradores Veglia feitos na Itália. Desenho muito bonito, até hoje.
Enfim, começou a campanha da minha mãe para ganhar um carro novo. Meu avô tentou persuadi-la à comprar um Corcel Belina, mas não teve a menor chance. E em 1975, fomos à concessionária Duetto, em São Paulo. O carro custou uma pequena fortuna na época, e chamava muito a atenção por onde passava. Via-se poucos carros destes na rua. Viajamos muito pouco com esse carro, que tinha alguns problemas crônicos, como a ausência de direção assistida, o câmbio ruim, e outros diversos. Além de ser um carro pesado, diferente do Dodge e do Passat.
Mas eu adorava esse carro. Foi o que mais ficou em casa, depois do Passat 76. Quando minha mãe assumiu a fábrica, era comum eu e o meu irmão ficarmos de um a três meses sem vê-la. Meu pai cuidou de nós este tempo todo, e isso durou quase dez anos. Eu tinha treze anos, já sabia manobrar o carro. Passava a tarde na garagem com as ferramentas, desmontando lanternas, acabamentos, limpando, esquentando o motor 2300 movido exclusivamente à gasolina especial (ou azul). Aliás, esse era um grande problema. Seu motor sensível não se adaptava à péssima gasolina comum, e o carro batia pino. Era uma máquina do tempo para mim. Eu sentava ao volante, ligava o som, e voltava às épocas boas que tivemos com ele, em família!
Em casa. Dourado-SP. Tempos inesquecíveis. Ao fundo o corcel 77.
Camisetas da Duetto. Ganhei várias da concessionária!
Quase perdendo o primeiro dente de leite.
Em 1985, ele foi vendido por um valor irrisório para um conhecido do meu pai. Foi a única vez que eu chorei por causa de um automóvel. Já não bastava ter vendido o Magnum? Agora a Alfa? E ela se foi, com seus 53 mil km rodados. Ficaram o Fusca (que eu não gostava) e o Passat, já bem deteriorado. A Alfa era o testemunho de um tempo muito bom, e estávamos em tempos muito difíceis no meio dos 80s. Raramente tínhamos dinheiro para abastecer o tanque de 100 l de gasolina. O carro ficava meses sem sair, mas sempre na garagem coberta. Foi melhor assim, racionalizando. Lembro que fazíamos lanche aos domingos com pão e manteiga, meu pai estava muito mal financeiramente, e mesmo assim curtíamos muito! Sempre fomos muito felizes, meu pai foi e é um grande pai!
Nunca mais vi meu "Faromeo", ele desapareceu do mapa. Varias vezes pensei em comprar um, mas são carros muito raros e de difícil restauração, já que apodreciam estacionados. O nosso tinha as caixas já com alguns furos. Desisti de qualquer tentativa, mas sempre levarei na memória o meu Alfa Romeo 2300. E tudo que ele representou para nós! Quem sabe um dia...
Abraços!
Luis Vital